Trilha Vocacional

Não deve ser enviado para longe aquele que não é uma bênção perto

No capítulo 13 de Atos, Paulo e Barnabé se encontravam na igreja de Antioquia. Foi ali que o Senhor falou com a igreja confirmando o chamado que tinham para o ministério. A Palavra narra que “disse o Espírito Santo: separai-me a Barnabé e a Paulo para a obra a que os tenho chamado” (v. 2). Diz também que eles, com a liderança da igreja descrita no versículo 1, estavam “servindo ao Senhor” (v.2) quando o Espírito Santo lhes convocou. Estudemos um pouco o que significa servir para entendermos qual deve ser a postura de vida daqueles a quem Deus chama.

O verbo “servindo” (do grego leitourgounton) utilizado no verso 2 aponta para aqueles que serviam ao Senhor como leitourgoi, servos.  Lembremo-nos que havia três formas de alguém se apresentar como “servo” no contexto do Novo Testamento.

Primeiramente, como doulos – o escravo. Nas palavras de Candus, seria “aquele que pessoalmente acompanha o seu Senhor para realizar os desejos do seu coração”. Portanto, doulos, no contexto do Novo Testamento, seria aquele que tem um compromisso direto com Deus – que serve pessoalmente ao seu Senhor.

Em segundo lugar, como diakonos – o mordomo. Aquele que serve ao seu Senhor através do serviço à comunidade. Na Palavra, o termo é usado para aqueles que, sensíveis à necessidade do Corpo de Cristo (física e espiritual), servem a Deus.

Em terceiro lugar, como leitourgos – o edificador. O termo, ligado à leitourgia (liturgia), não é restrito ao culto como o usamos hoje. Refere-se àquele que serve ao Senhor sendo usado por Ele para abençoar e edificar o seu irmão. É justamente esta a raiz do verbo em Atos 13 e expressa que Paulo e Barnabé serviam ao Senhor, afirmando assim que eles eram, antes de tudo, abençoadores, edificadores do Corpo de Cristo em Antioquia. Em outras palavras, eram uma bênção naquele lugar!

A primeira característica apontada pelo texto a respeito desses dois homens que iniciaram a obra missionária como a conhecemos hoje não foi a competência intelectual, o título ministerial ou a profundidade teológica, mas sim a fidelidade de vida em relação aos de perto que os rodeava em Antioquia.

Uma aplicação objetiva do texto seria: não envie para longe aqueles que não são uma bênção perto. Aquele rapaz que diz possuir um claro chamado ministerial, mas é criador de problemas, não está pronto para ser enviado. Aquela jovem que insistentemente se diz chamada e deseja ir para algum lugar distante, mas não se dispõe a cooperar em um ministério da sua igreja local, também não está pronta para o envio. O outro jovem que deseja ser pastor e servir ao Corpo de Cristo, mas é e imaturo e arrogante na relação com os demais, não deve ainda ser enviado ao seminário. Não envie para longe quem não é uma bênção perto.

Spurgeon já falava, em 1885, que “nada é mais difícil do que se mostrar fiel aos de perto que bem lhe conhecem” e aqui três rápidas aplicações poderiam ser feitas com base no texto de Atos 13.

Pessoal. Não há nada mais perto de nós do que a nossa família. Aquele que não pode ser apontado pelos pais, esposa, esposo ou filhos como leitourgos no dia a dia de sua casa, dificilmente será uma bênção fora dela.

Ministerial. Líderes e pregadores que se destacam nos púlpitos e salas de seminários, mas fracassam sucessivamente com a família, amigos e pessoas chegadas, não estão prontos para o ministério. O ministério não nos define. O que nos define é nossa vida em Cristo.

Eclesiástica. Não há nada mais perto da igreja do que a própria igreja – os irmãos com os quais nos encontramos a cada dia ou semana. Se uma comunidade cristã não demonstra ser leitourgos, abençoadora, para aqueles com que convive dia a dia, culto a culto, dificilmente conseguirá fazer diferença em outros lugares da sociedade, seja perto, seja longe.

Deus não vê como vê o homem – Ele vê o coração

Deus nos avalia pelo nosso coração e não por nossa aparência. A Palavra usa expressões como “coração puro” (Sl 51.10), “de todo o teu coração” (Mt. 22.37), “integridade do coração” (Sl. 78.72) e “santidade ao Senhor” (Ex. 29.6) para nos fazer entender que “o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem olha para o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração” (1 Sam. 16.7)

Richard Baxter (1615-1691), teólogo, homem piedoso e autor de mais de 130 livros, afirma em seu livro O pastor aprovado que “é mais fácil julgar o pecado que dominá-lo” e desafia-nos: “somos exortados a olhar por nós mesmos para não suceder que convivamos com os mesmos pecados contra os quais pregamos”. Nesta mesma esteira, C. S. Lewis nos ensina que “quando um homem se torna melhor, compreende cada vez mais claramente o mal que ainda existe em si. Quando um homem se torna pior, percebe cada vez menos a sua própria maldade”.

É na arena do nosso coração que as maiores batalhas são travadas. É ali que sairemos vitoriosos em Cristo ou derrotados pela carne. O ministério não é tecido prioritariamente por fios de inteligência, competência ou influência, mas de santidade, fé e espírito quebrantável. Que Deus nos livre de sermos aplaudidos pelos homens e desqualificados por Ele. Cuide do seu coração!

Adquira boas ferramentas

O preparo missionário inicial deve ocorrer em sua própria igreja, onde Deus o colocou. Ali você deve servir e aprender. Procure o seu pastor ou líder e seja um voluntário de acordo com as necessidades locais.

Amadurecido no Senhor e na convicção de seu chamado é hora de adquirir outras ferramentas. Elas podem ser encontradas em seminários teológicos, centros missiológicos, programas de treinamento missionário e cursos profissionalizantes.

Cada caminhada missionária é única. Se você entende que deve se envolver com tradução bíblica certamente precisará de uma boa formação teológica e hermenêutica, bem como linguística e antropológica. Todo missionário transcultural deve buscar orientação e preparo para lidar com cosmovisões, lugares e sociedades diferentes.

Precisará, muitas vezes, aprender uma nova língua, compreender uma nova cultura e contextualizar-se em um novo lugar. As ferramentas linguísticas e antropológicas são fundamentais. A base de sua formação, porém, deve ser bíblica e missiológica. Ali estão os valores, critérios e recursos que você usará e aplicará em todo o seu ministério.

Há no Brasil ótimos centros de formação missionária. Cursos de linguística, tradução da Bíblia, formação teológica e missiológica, especializações antropológicas, além de centros de profissionalização e experiências práticas de campo. Apresentamos a você uma lista de referencia (que não é exaustiva) de alguns destes centros de treinamento missionário. Procure o seu pastor e líder antes de optar por um deles. Procure informações de missionários que por ali passaram. Busque referência de integridade bíblica e de vida cristã. Sobretudo, busque direção clara do Senhor e dê este próximo passo.

Deus, via de regra, nos mostra apenas o próximo passo. Este próximo passo é suficiente para sabermos a direção e dependentes no Senhor – que conhece todo o caminho –,seguir com fé, paz e grande esperança de servir o Cordeiro.

CENTROS DE TREINAMENTO MISSIONÁRIO

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