Trilha Vocacional

Aos 16 anos de idade, meu pai levou-me para colaborar com alguns trabalhos em congregações e igrejas que estavam sob o seu cuidado. Trabalhei com adolescentes, ensinei na classe de escola dominical, preguei em congregações e o acompanhei em visitas pastorais. Dentro de dois anos, antes de seguir para o seminário, estava claro para mim que Deus não me chamara para o mesmo trabalho que chamou o meu pai. Enquanto ele sentia-se fortemente atraído pelo rebanho de Cristo, meus olhos se dirigiam para os que não o conheciam. Ele sentia satisfação e possuía nítida facilidade em visitar os crentes e cuidar do povo de Deus. Minha satisfação e facilidade estavam nas portas que se abriam para a evangelização entre os que não seguiam a Cristo. Fui para o seminário com a convicção de que não seria pastor em uma igreja local, mas um missionário com foco na evangelização e plantio de igrejas.

Estas conclusões ministeriais normalmente se dão ao longo da caminhada. Envolva-se nas oportunidades ministeriais que Deus lhe dá, peça a Ele discernimento e abra os olhos do seu coração para enxergar o caminho certo.

Ultrapasse as crises da vocação
Percebo algumas crises entre os vocacionados. As principais talvez sejam de compreensão, discernimento e ação.

A crise de compreensão se estabelece à medida que não entendemos, na Palavra de Deus, que somos todos vocacionados para servir a Cristo. Assim, relegamos o trabalho aos que possuem um chamado ministerial específico. Outras vezes, por associarmos o chamado puramente a títulos ou posições eclesiásticas, esquecendo que fomos todos chamados em Cristo para a vida no Espírito e para o trabalho na missão.

A crise de discernimento nasce quando não fazemos clara distinção entre o chamado universal a todo crente e o chamado ministerial específico. Podemos passar a vida frustrados em qualquer lado do muro se não buscarmos discernimento vocacional. Esse discernimento é encontrado primeiramente na Palavra, estudando o que a Bíblia nos ensina sobre vocação. Em segundo lugar, caso haja uma convicção de chamado ministerial específico, associando-nos ao trabalho da igreja e passando nossa vocação pelo crivo dessa experiência. Por fim, precisamos buscar ao Senhor em oração, especialmente para saber qual será o próximo passo. Deus, geralmente, só nos mostra o próximo passo.

A terceira crise que percebo é de ação. Há um número grande de irmãos e irmãs com clara compreensão bíblica sobre a vocação e claro discernimento sobre os passos a serem dados, mas nunca os dão. Para alguns, esse passo deve ser um envolvimento maior com o ministério da igreja local. Para outros, seria seguir para um centro de treinamento teológico ou para um campo missionário. O importante é perceber que, em algum momento ao longo da convicção de um chamado ministerial, é preciso dar um passo.

Sirva a Deus agora!

Ao longo dos anos, tenho me encontrado com duas classes de pessoas frustradas com o caminho percorrido a partir da nítida sensação de que “está faltando alguma coisa”. A primeira é do crente que tem seu trabalho e carreira, mas sente que deveria estar no ministério com tempo integral. É possível que Deus de fato o tenha chamado para o ministério e que seja preciso abandonar seu trabalho, preparar-se e seguir. Porém, a maioria dos casos que observo é formada por crentes que deveriam estar envolvidos nas causas de Deus no percurso de sua caminhada de estudo, trabalho e carreira. Deveriam ser sal e luz aos colegas de escritório, testemunhas de Cristo aos amigos da universidade e cooperadores dos necessitados. Deveriam se envolver para minimizar a injustiça, a fome e a miséria, além de pregar a Palavra nas ruas, praças e condomínios. Falta envolvimento com as coisas de Deus, o que gera uma frustração espiritual que pode ser confundida com um chamado ministerial. Em casos assim, largar a profissão e ir para um seminário ou campo missionário não os levará a encontrar o que está faltando, pois o que falta é um compromisso pessoal com Deus e as coisas de Deus.

A segunda classe em que percebo focos de frustração é no meio ministerial. São pastores e missionários que, estando envolvidos com a obra de Deus, passam também a nutrir em seus corações uma atração pelos caminhos profissionais ou acadêmicos não diretamente ligados ao ministério. Quero deixar claro que entendo de forma extremamente positiva estas oportunidades de maior preparo e louvo a Deus por aqueles que ousam ir além do preparo teológico, transitando pelas áreas da antropologia, história, linguística, psicologia e outras. Por outro lado, nesta caminhada alguns parecem ser seduzidos pelas luzes acadêmicas e profissionais, levando-os a se dispersarem do foco ministerial e, ao fim, produzindo uma forte frustração. A solução não é distanciar-se das ferramentas que Deus lhe dá para melhor servir no ministério, mas manter clara e viva a chama vocacional, relembrando quais são, de fato, as prioridades de Deus em sua vida.

Quando o preparo se alia ao ministério, o resultado é abençoador. Há, por exemplo, um número crescente de missionários biocupacionais que chegam a regiões onde um missionário apenas com preparo teológico jamais chegaria. Estes missionários biocupacionais têm acesso a classes e comunidades que um religioso não teria. Em qualquer situação, parece-me que o mais importante é jamais se esquecer de que Deus o chamou para servi-lo com dons e oportunidades que Ele lhe dá – e não há nada melhor.

Nossa vocação em Cristo é nosso maior privilégio e também nosso maior desafio. Perante tal vocação, devemos louvar a Deus e lhe agradecer pelo privilégio de servir a Cristo ao mesmo tempo em que devemos nos fortalecer no Senhor (Ef. 4.10) para não cair nas ciladas do diabo (v. 11), resistir no dia mau (v. 13) e pregar o Evangelho de Deus (v. 19).

Estive visitando uma região próxima a Maraã no coração do Amazonas, onde vivem os Kambeba, Kokama e Miranha. Eram tidos, até poucos anos atrás, como grupos indígenas ainda não alcançados pelo Evangelho. Tamanha foi minha surpresa ao chegar entre eles e ver ali a presença de uma forte igreja evangélica, que louva a Deus com fervor e amor. Procurando os autores daquele trabalho missionário,  apontaram-me alguns crentes ribeirinhos, especialmente o Sr. João, como é conhecido. Fui entrevistá-lo. Pessoa simples, quase iletrado, mas com tremenda paixão pelo Senhor Jesus. Com a sua família, ele vivia em um flutuante formado por um cômodo apenas e, além das redes, possuíam somente uma cadeira e uma panela. Contaram-me como se mantinham por meio da pesca e usavam toda a energia e tempo para transmitir o Evangelho de Cristo aos indígenas da região.

Perguntei-lhe: “Mas como vieram parar aqui, em região tão distante?”. Ao que respondeu: “viemos ganhar a vida”. “E como está a vida ?” – indaguei. “Vai muito bem. Já plantamos seis igrejas”.

Aqueles eram missionários sem sustento, aplausos ou reconhecimento. Eram servos de Jesus que confundiam o ganhar da vida com o ganhar de almas. Pessoas que passavam privações profundas para que o Evangelho chegasse até o final do rio Maraã.

O que segura um missionário no campo não são projetos, sustento, equipes ou igrejas enviadoras, mas sim a profunda, intransferível e inconfundível convicção que Deus o chamou.

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